sábado, 19 de maio de 2018

Fernando Gabeira: Coxinhas e mortadelas

- O Globo


Grupos formam uma oposição até bem-humorada. Mas quadro muda quando os mais radicais abusam das expressões fascista e comunista


Com a prisão de Lula, Palocci e, agora, José Dirceu, o PT sofre um duro baque. Os dois outros grandes partidos, PSDB e MDB, agonizam mais lentamente. Precisamente as escaramuças para driblar a Justiça e escapar da Lava-Jato, diante de uma plateia atenta, vão levá-los à perda de credibilidade.

Imaginam que ninguém percebeu que Gilmar Mendes soltou seus operadores. Gilmar funciona como um juiz de futebol que apita uma inexistente falta de ataque dentro da área. No futebol chamamos a isso de perigo de gol. Em termos jurídicos, é perigo de delação premiada.

José Dirceu, o último a ser preso, concedeu uma entrevista muito sensata e inteligente sobre a vida na cadeia, como sobreviver, como se comportar. Ele acha que a esquerda voltará ao poder, porque é esse o fio da história.

É perfeitamente possível que, num processo de alternância democrática, a esquerda volte ao poder. No entanto, é difícil para os velhos militantes abrirem mão desse fio da história, da crença de que ela tem um rumo e desembocará no destino previsto.

Isto, por mais que seja revestido de um verniz científico, é na verdade um contrabando religioso no pensamento político. Se a história tem um script determinado, o papel dos atores também é facilmente explicável, uns a favor outros contra o suposto rumo da história.

É um tipo de pensamento que facilita a divisão grosseira entre nós e eles. Contribuiu a seu modo para o desgaste de nosso tecido político, do avanço da intolerância.

Coxinhas e mortadelas, na verdade, formam uma oposição até bem-humorada. Uma oposição entre carne branca e vermelha que talvez viaje no nosso inconsciente antropofágico.

Hans Staden, um mercenário alemão que passou nove meses entre os tupinambás, foi certamente o primeiro coxinha da história. Quase o comeram. Escreveu um livro que arrebatou a Europa, um best-seller para a época.

Nos dias atuais, a sublimação do desejo de devorarmos uns aos outros não deixa de ser um avanço. No entanto, o quadro muda quando os setores mais radicais no espectro usam e abusam das expressões fascista e comunista.

Tanto o fascismo como o comunismo, cada um no seu estilo, deixaram milhões de mortos, em regimes onde a liberdade também foi sepultada. Quem é chamado de fascista ou comunista sente-se, no caso de não sê-lo, bastante ofendido.

Mas isso não é o principal efeito colateral dessa leviana troca de acusações. O fascismo é uma experiência histórica bem definida. O primeiro efeito colateral negativo de acusações infundadas é banalizá-la e, portanto, desativar sua rejeição e torná-la mais perigosa caso apareça no horizonte.

O outro efeito colateral das acusações recíprocas é a falsa sensação de que comunismo e fascismo são o verdadeiro antagonismo na sociedade brasileira.

A ambos interessa que o antagonismo seja esse. No entanto, ele mascara os diversos pontos em comum que os regimes comunistas e fascistas partilham: repressão política, partido único e suas consequências.

E esconde o verdadeiro adversário do fascismo e do comunismo: a democracia, solução negociada dos nossos problemas.

A esquerda usou grande parte de sua energia para se defender, e deixou de lado os problemas nacionais. É uma ausência que não só reduz suas chances da alternância no poder: empobrece o debate sobre a reconstrução nacional.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Da liberdade à vitimização - PAULO CRUZ

Da liberdade à vitimização

Luiz Gama empunha a bandeira dos Liberais Dissidentes. Angelo Agostini/Reprodução
Luiz Gama empunha a bandeira dos Liberais Dissidentes. Angelo Agostini/Reprodução
“Eu disse uma vez que a escravidão nacional nunca havia produzido um Terêncio, um Epicteto, ou sequer um Espártaco. Há agora uma exceção a fazer: a escravidão entre nós produziu Luiz Gama, que teve muito de Terêncio, de Epicteto e de Espártaco”. (Sílvio Romero, História da Literatura Brasileira)

No último domingo, 13 de maio de 2018, aniversário de 130 anos da Abolição da Escravatura no Brasil, o programa Fantástico, da Rede Globo, não veiculou uma reportagem comemorativa; não exaltou a gloriosa luta abolicionista; não falou de Abílio Cesar Borges, Luiz Gama, André Rebouças, José do Patrocínio, Joaquim Nabuco, João Clapp, José de Seixas Magalhães, Luíza Regadas, Chiquinha Gonzaga e tantas outras figuras importantíssimas do movimento pela abolição dos escravos. Mesmo as menções à Princesa Isabel e a D. Pedro II, personagens fundamentais no processo da abolição, foram, infelizmente, num tom crítico exacerbado. O Fantástico escolheu falar sobre o racismo, que persiste, de acordo com a historiadora Lilia Moritz Schwarcz (USP) – figura onipresente em absolutamente todo o noticiário sobre o assunto –, por ser uma das consequências diretas da Lei Áurea, por esta “ter sido tão conservadora” – como se a promulgação de uma lei pudesse dar conta dos desdobramentos psicológicos de mais de 300 anos de escravidão.
O programa sustentou sua tese colocando placas com frases racistas, recentes e do passado, em locais movimentados da cidade de São Paulo, e pedindo para que os transeuntes as lessem. O resultado foi, no mínimo, curioso. Alguns não conseguiram lê-las até o final, considerando-as ofensivas demais para serem verbalizadas; outros disseram que, infelizmente, continuamos sustentando os mesmos separatismos do passado; outros ainda, ao lerem, sentiram-se tão emocionados que não puderam conter as lágrimas – voltarei a esses últimos, que eram negros, mais abaixo. Mas uma coisa é certa: a rejeição do racismo por parte de todos os entrevistados foi absoluta.
Fica a pergunta: como esse país pode ser racista?! Será que se algum entrevistado manifestasse o seu racismo publicamente, o programa não teria feito questão de mostrá-lo para, definitivamente, provar que o racismo existe? Mesmo as pessoas acusadas de racismo, como um professor da Escola Técnica Federal e um aluno da FGV, mostrados pelo programa, afirmaram, categoricamente, não serem racistas. E, se mentem, é mais uma prova da consciência que têm do quão condenável é tal comportamento. Os neonazistas, por exemplo, fazem questão de exibirem suas suásticas; e a Ku Klux Klan continua com suas reuniões regularmente nos EUA. Aqui, o “racista”, isolado, se esconde, pois sua atitude é condenada pela esmagadora maioria da sociedade.
A professora Lilia Schwarcz, reafirmando a tese de seu livro Nem preto, nem branco, muito pelo contrário (Claro Enigma), diz que o racismo persiste no país porque, durante muito tempo, assumimos a postura de pensar que o racista é sempre o outro, negando o problema. Ela toma a confusão das pessoas em não se dizerem racistas – mas, na mesma proporção, conhecerem pessoas racistas – como um racismo não assumido. Mas eu apostaria que essa confusão se dá por outro motivo: a dificuldade que temos para definir o que é racismo. Explico. O que leva uma pessoa a chamar outra de “macaco”, nem sempre denota uma noção consciente de raça; pode ser somente um desejo gratuito de ofender – por saber que o outro se sente ofendido ao ser chamado assim. Os motivos que levam um empresário a não contratar um funcionário negro, mesmo tendo mostras evidentes de sua superioridade profissional frente a um candidato não-negro, demonstra inicialmente, apenas um caso flagrante de mau empreendedorismo. Ou alguém que, apesar de ter amigos negros, não queira que sua filha se case com um negro, demonstra um preconceito que pode ter origem no próprio comportamento de seus amigos negros, ou, ainda, por uma tentativa de, tomando o racismo como uma realidade abjeta, querer proteger a filha de possíveis constrangimentos futuros.
Na obra supracitada, a historiadora diz, citando o grande Thomas Sowell, que mesmo que a definição de “raça” seja complicada – e o próprio Sowell demonstra que essa dificuldade suscita um sem-número de controvérsias –, o problema não se torna uma “falsa questão”, advertência com a qual concordo. Por outro lado, Sowell também afirma, em Intellectuals and Race, que “raça”, mais do que uma categoria social ou cultural, se transformou numa “indústria, com sua infraestrutura própria, suas subdivisões, incentivos e agendas”. A proliferação de departamentos acadêmicos e de pesquisa, de ONG’s, de um mercado específico baseado nessas categorias, faz com que os interessados no racismo como problema tratem de, cada vez mais, reafirmá-lo a fim de manterem suas posições. Negar o “racismo estrutural” seria ruir a estrutura que os sustenta.
Agora volto aos jovens negros que, lendo as frases racistas, choraram. Fiquei triste por perceber que o Movimento Negro, após descobrir conceitos como “microagressão”, vem transformando os jovens negros em verdadeiros fracos, incapazes de sentir orgulho de sua cor e presas fáceis de um sentimentalismo nocivo. “O sentimentalismo”, diz o psiquiatra britânico Theodore Dalrymple, em Podres de Mimados (É Realizações), “é a expressão da emoção sem julgamento. Talvez ele seja pior do que isso: é a expressão da emoção sem um reconhecimento de que o julgamento deveria fazer parte de como devemos reagir ao que vemos e ouvimos […] O sentimentalismo é, portanto, infantil (porque são as crianças que vivem em um mundo tão facilmente dicotomizável) e redutor da nossa humanidade”.
A reação daqueles jovens no Fantástico, diante de frases escritas em cavaletes, longe de qualquer possibilidade real de perigo, de ofensa, de racismo, no safe-space da Rede Globo, foi chocante para mim. Foi a constatação de que algo muito errado aconteceu a essa juventude. Outra jovem contou que se sentiu um objeto de pesquisa de sua professora, quando esta pediu para tocar em seu cabelo e disse – estupidamente, é verdade: “sempre quis tocar no cabelo de um negro”. Outra aluna entrevistada disse, em seguida, que “o racismo também está nessa microagressão”. Nesse caso, a pressão do Coletivo AfriCásper (!) – grupo criado “com o intuito de proporcionar a troca de informações, a realização de discussões relacionadas aos temas de interesse da comunidade negra, e também a interação da mesma com o ambiente universitário” – foi tão grande que, de acordo com informações de sites ligados ao Movimento Negro, a professora foi demitida.
O termo “microagressão” foi cunhado pelo psiquiatra americano Chester Middlebrook Pierce e popularizado pelo psicólogo Derald Wing Sue – que, recentemente, lamentou o uso excessivo e persecutório do termo, evidenciado numa planilha que circulou no site de algumas universidades americanas, listando exemplos de microagressões –, e vem sendo usado como ferramenta de vitimização da mais irrelevante e contraproducente geração de negros da História.
O efeito que tal conduta provoca é totalmente contrário ao esforço descomunal das gerações anteriores, que lutaram para criar uma identidade positiva da “raça negra”. Lembro-me da alegria que senti ao comprar a primeira Revista Raça, e ver negros sorridentes, bem-sucedidos, muito bem-vestidos (com roupas de grife), esbanjando beleza e bom gosto. Lembro também dos “Bailes Black”, das rodas de samba, das festas de família, ambientes nos quais o racismo era uma impressão – embora indelével – incapaz de minar nosso orgulho e nossa consciência. A agenda do Movimento Negro atual é projeto de poder, uma ideologia nociva que está transformando o mundo num caldeirão de ódio e ressentimento.
Luiz Gama, o grande advogado e abolicionista, é que poderia ser um exemplo para esses jovens coitadistas. Vendido como escravo pelo próprio pai, Gama conseguiu sua alforria e, de maneira obstinada, tornou-se o “advogado dos escravos”, com mais de 500 ações de libertação de escravos ganhas em sua brilhante carreira. Gama também era poeta, e manifestava em seus versos a enorme convicção de sua importância, carregada de uma altivez absolutamente genial. Em sua obra Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, publicado em 1861, no poema de abertura, Prótase, ele “confessa”:
Sobre as abas sentado do Parnaso,
Pois que subir não pude ao alto cume,
Qual pobre, de um Mosteiro à Portaria,
De trovas fabriquei este volume.
[…]
Grosseiras produções d’inculta mente,
Em horas de pachorra construídas;
Mas filhas de um bestunto que não rende
Torpe lisonja às almas fementidas.

Em seguida, dá uma lição espetacular de erudição e inventividade, em Lá Vai o Verso:
Alta noite, sentindo o meu bestunto
Pejado, qual vulcão de flama ardente,
Leve pluma empunhei incontinente
O fio das idéias fui traçando.

As Ninfas invoquei para que vissem
Do meu estro voraz o ardimento;
E depois revoando ao firmamento,
Fossem do Vate o nome apregoando.

Oh! Musa de Guiné, cor de azeviche,
Estátua de granito denegrido,
Ante quem o Leão se põe rendido,
Despido do furor de atroz braveza;
Empresta-me o cabaço d’urucungo,
Ensina-me a brandir tua marimba,
Inspira-me a ciência da candimba,
As vias me conduz d’alta grandeza.

Quero a glória abater de antigos vates,
Do tempo dos heróis armipotentes;
Os Homeros, Camões – aurifulgentes
Decantando os Barões da minha Pátria!
Quero gravar em lúcidas colunas
O obscuro poder da parvoíce
E a fama levar de vil sandice
Às longínquas regiões da velha Báctria!

Quero que o mundo me encarando veja,
Um retumbante Orfeu de carapinha,
Que a Lira desprezando, por mesquinha,
Ao som decanta da Marimba augusta;
E, qual Arion entre os Delfins,
Os ávidos piratas embaindo –
As ferrenhas palhetas vai brandindo
Com estilo que preza a Líbia adusta.

Misturando a exaltação da poesia clássica, evoca, não as musas do Olimpo, mas da Guiné, demonstrando, surpreendentemente, um grande conhecimento da cultura africana.
Sobre o racismo que sofria, também faz troça em Quem sou Eu?:
Se negro sou, ou sou bode
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda a casta,
Pois que a espécie é muito vasta…
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus, e outros nobres,
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes…

Colocando, desse modo, todos os seres humanos – brancos, negros, pobres, ricos etc. – no mesmo patamar.
De acordo com a professora Elciene Azevedo, autora do livro biográfico Orfeu de Carapinha (Unicamp):
“O tom dado por Luiz Gama a seus poemas, longe de trazer uma imagem lamentativa do negro, ligada ao trabalho forçado e à vitimização do escravo, conduzia o leitor a um mundo negro dissociado do trabalho compulsório e valorizado em seus aspectos culturais. Por isso mesmo seus versos deviam ser um meio bastante eficaz de não só de denúncia como também de uma inovadora proposta social. Pode-se dizer a construção de uma identidade africana fundamentada na positivação do negro, e o argumento de que todos neste país de certa forma possuíam ascendência africana, são dois lados de uma mesma moeda”.
É exatamente isso que falta a esses jovens e ao Movimento Negro como um todo. Um senso de positivação não rancoroso; uma consciência negra não cativa de ideologias europeias que só fizeram diminuir o valor do negro na cultura brasileira em vez de exaltá-lo.
Que Deus nos ajude a mudar esse triste quadro.

Carlos Alberto Sardenberg: Abaixo a ditadura, pô!


- O Globo

Defensores da ditadura dizem que pelo menos não havia corrupção. Errado. Havia. Apenas não podia ser descoberta

Estamos em 1969, o governo militar havia editado o Ato Institucional número 5, no que foi um endurecimento do regime e uma escalada da repressão. Em São Paulo, na esquina de Rua Itambé com Avenida Higienópolis, havia um casarão protegido por muros altos e compridos. Tela ideal para as pichações a que se dedicavam os movimentos estudantis alojados na Faculdade de Filosofia, ali ao lado, na Rua Maria Antônia.

Assim, numa manhã, o muro apareceu com letras enormes: Abaixo a ditadura. Logo no dia seguinte, porém, as paredes estavam branquinhas de novo. Mais um dia e, lá estava, Abaixo a ditadura, slogan da época, posto durante a noite. Mais um dia, e o muro amanhece lavado e pintado. Na quinta manhã dessa disputa, os pichadores perdiam a paciência, mas não o humor. Escreveram: Abaixo a ditadura, pô!

Lembrei-me do slogan nos últimos dias, quando ouvintes do meu programa na CBN enviaram e-mails defendendo a ditadura militar dos anos 60 e 70 e pedindo a sua volta. Reagiam ao noticiário sobre documentos da CIA que mostravam que os presidentes Ernesto Geisel e João Figueiredo não apenas sabiam como autorizavam a execução de “subversivos perigosos”.

Confesso que me surpreendi com essa reação. Pensava que a ideia de ditadura militar estava sepultada na nossa história, sendo defendida, talvez, por pequenos grupos desavisados. Parece que é mais gente do que isso.

O que exige o comentário, aqui reproduzindo e ampliando o que disse na CBN.

Os que defendem a ditadura militar recorrem a quatro argumentos.

O primeiro sustenta que o regime dos anos 60 e 70 foi muito eficiente na promoção do desenvolvimento econômico. O exemplo é o período de 1968 a 73, quando o país cresceu a mais de 10% ao ano.

Verdade que cresceu, mas esse foi um momento de prosperidade mundial. Havia crescimento em boa parte do mundo e liquidez abundante, capitais externos para investimentos e empréstimos a juros baixos. O regime militar pegou essa onda. E pegou mal, porque quando a situação externa piorou, com a crise do petróleo e dos juros internacionais, o país estava despreparado. Caiu na inflação, na recessão e na moratória de uma dívida externa insustentável.

A queda foi pesada. Quando os militares se retiraram, em 1985, o Brasil estava assim: inflação de quase 200%; dívida pública equivalente a 30% do PIB, vindo de apenas 5% no início dos anos 70; dívida externa 20 vezes maior que a de 1970.

Além disso, muitas obras faraônicas deixadas pelo caminho, como a Transamazônica e a Ferrovia do Aço (“loucura de botar sujeito na cadeia”, segundo comentário de Eugênio Gudin), estatais endividadas. Eficiência? No segundo argumento, os defensores da ditadura dizem que pelo menos não havia corrupção. Errado de novo. Havia. Apenas não podia ser descoberta. Mas o pessoal de dentro sabia. O que levou Mário Henrique Simonsen, ministro de Geisel e Figueiredo, a deixar uma de suas frases históricas: “Às vezes, é melhor pagar a comissão e não fazer a obra; sai mais barato”.

Argumentam ainda os saudosos da ditadura que o regime botava ordem na casa. Com censura à imprensa, restrição severa sobre o Judiciário e o Congresso, aniquilação de opositores e eleições controladas.

Finalmente, quarto argumento, dizem que é melhor uma ditadura militar do que uma ditadura comunista. E voltam assim à tragédia política dos anos 60 e 70: a direita justificava a sua ditadura como meio de evitar a instalação de um regime à cubana por aqui. A esquerda revolucionária, que de fato treinava em Cuba, atacava a ditadura militar esperando que sua derrubada levasse não à democracia que chamavam de burguesa, mas ao socialismo da ilha, que também aniquilava seus opositores. Foi uma triste história. Mas prevaleceram os verdadeiros democratas, liderados por Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Franco Montoro.

Parecia que a lição estava aprendida. E aí aparecem, de um lado, os defensores do regime militar, dizendo que nossa democracia é fraca para conter as esquerdas e os corruptos. No outro, as esquerdas, dizendo que a democracia é ilegítima, que é contra os pobres e pune Lula e seu pessoal não porque são corruptos, mas porque são do povo.

É de se lamentar. Dos dois lados, um desprezo pela democracia, pelo Judiciário, pela imprensa livre.

Por isso é preciso repetir: Abaixo a ditadura, pô! Mas acrescentando o que os jovens daquele momento não escreveram: E viva a democracia.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

O que os criminologistas não dizem, e por quê - Jonh Paul Wight


O que os criminologistas não dizem, e por quê

Monopolizada pela esquerda, a pesquisa acadêmica norte-americana sobre crime e violência entende quase tudo errado

  • John Paul Wright e Matt DeLisi*
  •  
  • City-Journal
  •  
 | Reprodução/Unsplash
Reprodução/Unsplash
A história da criminologia é repleta de pronunciamentos solenes que muitas vezes não têm paralelo no mundo real. Nas décadas de 1960 e 1970, por exemplo, os criminologistas exigiam que as políticas públicas atacassem as “causas-raiz” do crime, como pobreza e racismo. Eles argumentavam que, sem resolver esses problemas, não conseguiríamos combater o crime de maneira efetiva. Partindo dessa premissa, bilhões de dólares foram gastos pelo governo dos EUA em ambiciosos programas sociais e, mesmo assim, a criminalidade aumentou em vez de diminuir.
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Nas décadas de 1970 e 1980, e no início da década de 1990, à medida que os índices de criminalidade continuavam aumentando, os criminologistas começaram a nos dizer que a polícia podia fazer muito pouco para reduzir tais índices, e que prender os criminosos, traficantes e líderes de gangues responsáveis por grande da violência cometida no país violência também não funcionaria. 
Essas premissas comprovaram ser falsas, mas eram difundidas e defendidas de forma tão generalizada por todos da área que quando o cientista político James Q. Wilson recomendou a incapacitação seletiva de criminosos violentos reincidentes, ele foi marginalizado por seus colegas, que recorreram a ataques ad hominem a seu caráter e suas motivações. 
O trabalho de Wilson foi ignorado por comissões de premiação, e as críticas de criminologistas a seus livros, especialmente Thinking About Crime e Crime and Human Nature, foram predominantemente negativas. Na arena política do mundo real, entretanto, Wilson alcançou influência significativa: a “teoria das janelas quebradas” sobre ordem pública e policiamento, desenvolvida por Wilson em parceria com o criminologista George Kelling, tornou-se fundamental para as estratégias proativas de policiamento que seriam, em grande parte, responsáveis pela significativa queda na criminalidade em meados da década de 1990. 
Em resumo, embora a criminologia tivesse muitas teorias sobre crime, a maioria delas estava errada. Como uma disciplina acadêmica poderia estar tão equivocada? E ainda: deveríamos ouvir a opinião de criminologistas quando eles defendem, por exemplo, que as cadeias sejam esvaziadas, que os policiais atuem como monitores de jardim da infância e que sentenças penais sejam drasticamente reduzidas, ou mesmo eliminadas? Respostas para a primeira pergunta já estão disponíveis para qualquer um – e sugerem qual seria a resposta para a segunda. 
Criminologistas acadêmicos são, na maioria das vezes, sociólogos munidos de teorias e com vasto conhecimento de estatística. Embora a maioria não estude diretamente crimes ou violência, muitos já produziram estudos úteis sobre os criminosos e o sistema penal. 
Por meio de seu trabalho, sabemos, por exemplo, que existe um forte componente intergeracional no comportamento criminoso, que relativamente poucas pessoas são responsáveis pela maioria de todos os crimes, e que alguns delinquentes deixam a criminalidade após algum tempo, mas muitos simplesmente mudam os tipos de crimes que cometem. Também sabemos que a maioria dos criminosos é generalista – isto é, eles cometem diversos tipos de crimes –, e que medidas podem ser tomadas para dificultar a atividade criminosa e, assim, reduzir o número de crimes cometidos. Constatou-se, enfim, que a maioria dos criminosos é preguiçosa. 
Por outro lado, a falta de contato direto dos criminologistas com a matéria, as situações e as regiões afetadas — e sua propensão à abstração — gera noções equivocadas sobre a realidade do crime. Grande parte dos acadêmicos nunca conversou com mulheres que foram estupradas ou crianças que foram molestadas, nem mesmo viu de perto o que uma bala pode fazer quando atravessa um crânio humano; muitos nem passaram algum tempo acompanhando o trabalho da polícia nas ruas. O abismo entre os números em uma planilha e a dura realidade muitas vezes gera uma visão romantizada dos criminosos como vítimas, fazendo com que os criminologistas tendam a ignorar os danos causados pelos infratores – e a defender políticas e tratamentos mais lenientes. 
A inclinação esquerdista na criminologia é mais do que evidente. Pesquisas mostram uma proporção de 30 para 1 entre progressistas e conservadores na área, comparável a outras ciências sociais. O maior grupo de criminologistas identifica a si próprio como radical ou “crítico”. Essas designações incluem diversas influências intelectuais esquerdistas, incluindo feminismo radical, marxismo e pós-modernismo.
Temas como injustiça, opressão, desigualdade, marginalização, justiça econômica e social, discriminação racial e violência sancionada pelo Estado dominam as salas de aulas e pesquisas na área, como pode ser visto em livros com títulos como Search and Destroy: African American Males in the Criminal Justice System (Busca e Destruição: Homens Afrodescendentes no Sistema de Justiça Criminal), The New Jim Crow: Mass Incarceration in the Age of Colorblindness (O Novo Jim Crow: Encarceramento em Massa na Era da Igualdade Racial) e Imprisoning Communities: How Mass Incarceration Makes Disadvantaged Neighborhoods Worse (Comunidades Aprisionadas: Como o Encarceramento em Massa Prejudica Bairros Carentes). 
Uma breve consulta ao Presidential Awards for Distinguished Contributions to Justice, prêmio concedido pela Sociedade Americana de Criminologia (ASC), mostra que os vencedores foram agraciados principalmente por sua defesa de políticas de esquerda. Entre eles estão um juiz de Massachusetts que defendia a abolir a pena de morte no estado, um agente do FBI que venceu um processo contra a organização por discriminação étnica e um ex-diretor da instituição para menores infratores de Massachusetts que fechou os reformatórios do estado e escreveu um livro alegando que o sistema caçava jovens negros por esporte. A sociedade também homenageou Zaki Baruti, ativista negro radical de St. Louis, conhecido pelo seu ódio à polícia e apoio a causas esquerdistas. 
Recentemente, o comitê de políticas da ASC enviou um e-mail para todos os seus membros, pedindo ajuda para contra-atacar um editorial do Wall Street Journal escrito por Heather Mac Donald, editora e colaboradora de longa data do City-Journal e escritora conhecida por refutar crenças progressistas sobre a polícia e o sistema judiciário. Mac Donald argumentou que, devido ao crescente escrutínio e às acusações de racismo, a polícia tinha relaxado em seus esforços para reprimir crimes, pelo menos em bairros com população predominantemente negra ou hispânica, resultando no aumento da violência em muitas cidades em todo o país. 
É o que ela chamou de “Efeito Ferguson”, cidade do estado de Missouri, onde, em 2014, um policial atirou (de forma justificada) em um jovem negro, Michael Brown, desencadeando motins e dando origem a uma nova campanha contra a polícia por parte de militantes, da imprensa e do Partido Democrata. A existência e a extensão do Efeito Ferguson são uma questão empírica que pode ser debatida. Mas não deixa de chamar atenção o fato de ASC nunca ter demonstrado nenhum interesse em refutar as centenas de editoriais sem qualquer base factual sobre tiros disparados pela polícia, ou o racismo supostamente entranhado no sistema criminal. Somente o trabalho de Mac Donald sofreu perseguição – assim como o de Wilson, anos atrás. 
Walter Miller, um dos poucos criminologistas da metade do século XX cujo trabalho era assumidamente conservador, sugeriu que a ideologia poderia transformar “plausibilidade em certeza indestrutível... crença condicional em convicção ardente... e defesa equilibrada em fanatismo implacável”. 
Quando crenças compartilhadas se consolidam – como acontece muitas vezes na bolha acadêmica na qual maioria dos criminologistas ideológicos vive –, pressupostos ideológicos sobre crimes e criminosos podem “assumir a forma do dogma sagrado e inviolável da única fé verdadeira, cujo questionamento é considerado heresia e cuja oposição é essencialmente perversa”. 
As observações de Miller se revelaram proféticas. Liderados pelo trabalho de Jonathan Haidt, um número crescente de pesquisadores agora reconhece que:
a falta de diversidade ideológica nas ciências sociais faz com que os estudos favoreçam as posições esquerdistas, que acabam se tornando os princípios orientadores em muitas áreas, contestados somente por aqueles dispostos a correr o risco de prejudicar a própria carreira. 
Pressupostos esquerdistas não são devidamente verificados e alegações tendenciosas de provas se tornam fato, enquanto evidências do contrário não são publicadas ou enfrentam uma análise muito mais rigorosa do que as alegações contestadas. 
Valores políticos de esquerda podem moldar e distorcer os estudos que criminologistas empreendem e os cargos públicos que ocupam. Lee Ellis e Anthony Walsh pesquisaram centenas de criminologistas e descobriram que a perspectiva ideológica declarada de cada um estava fortemente associada ao tipo de teoria que o pesquisador defendia mais frequentemente, sendo que criminologistas esquerdistas defendiam principalmente teorias que apontam a privação econômica e social como causas da criminalidade. 
Recentemente, John Wright coletou dados mostrando que a ideologia política prevê quase perfeitamente as posições políticas dos criminologistas. Em questões que vão desde o controle de armas, passando pela pena capital, até a lei das “três chances”, os criminologistas de esquerda demonstraram suas crenças de maneira praticamente uniforme. 
(Eles obviamente não gostam de armas, opõem-se a sentenças punitivas e são veementemente contra a pena de morte.) 
A maioria dos criminologistas segue uma narrativa de “dano-penal”, que pretende dar conta de todas as maneiras pelas quais o sistema judiciário criminal dificulta a vida dos criminosos e de suas comunidades, gerando e reforçando a desigualdade social e prejudicando minorias, já que elas são os principais alvos. 
Os defensores da narrativa do “dano-penal” afirmam que os legisladores conservadores usaram demagogicamente o aumento nos índices de criminalidade no século XX – incluindo mais de 20 mil assassinatos e centenas de milhares de estupros, roubos e assaltos por ano – para incitar a animosidade racial e o apoio a políticas penais excessivamente punitivas. Os legisladores incentivaram uma série de medidas: o aumento do efetivo policial, sentenças criminais mais longas e uniformes, combate a gangues e aos crimes nas ruas – mais comuns em bairros ocupados por minorias – e aumento da capacidade prisional. O resultado foi uma era de “encarceramento em massa”.
Surpreendentemente, os criminologistas não conseguiram ver que décadas de índices crescentes de criminalidade nos EUA poderiam ter influenciado o apoio da população à adoção das leis das “três chances”, à imposição de outras sentenças mínimas obrigatórias, ao aumento do número de presos e até à pena de morte. Em vez disso, os especialistas alegaram que os esforços anticrime revelavam tão somente a ânsia dos conservadores para prejudicar as populações vulneráveis. 

Crescimento da população prisional

Em 2012, a National Academy of Sciences (NAS) encomendou um estudo acadêmico sobre o crescimento da população prisional. Esse trabalho foi comandado por Jeremy Travis, diretor do Instituto Nacional de Justiça no governo de Bill Clinton e pesquisador sênior do Urban Institute, um think tank progressista. Travis tem uma longa história política no Partido Democrata e ocupou recentemente o cargo de Presidente do John Jay College of Criminal Justice
Para avaliar as evidências sobre encarceramento, ele criou duas comissões com acadêmicos que tinham adotado, com maior ou menor fervor, a narrativa do “dano-penal” muito antes de a NAS encomendar o estudo. Bruce Western, Michael Tonry e Marie Gottschalk tinham escrito relatos críticos aos danos supostamente acarretados pelos crescentes índices de encarceramento. Tonry (ex-presidente da ASC) já havia comparado o encarceramento com Guantánamo, com o programa de captura da CIA e com tortura; Gottschalk tinha condenado a ascensão do “estado carcerário” como um método para controlar populações negras. Suas visões dominaram o relatório da NAS, que não difere substancialmente em nada dos argumentos de grupos radicais de esquerda, como o Black Lives Matter. 
Qual foi o benefício de se garantir que criminosos violentos cumpram 85% de suas penas ou que mais assassinos sejam condenados à prisão? Não muito, de acordo com o relatório, exceto o de beneficiar os racistas. Os autores alegaram que os índices de criminalidade não foram afetados, mas com a prisão, homens negros e hispânicos foram removidos de seus bairros, perderam seu direito de voto, suas famílias foram desestabilizadas e os escassos recursos econômicos dessas comunidades carentes minguaram ainda mais.
Tais afirmações podem parecer plausíveis apenas para alguém que acredita – ao contrário das evidências e do senso comum – que criminosos de carreira contribuem positivamente com a vizinhança, tenham famílias estáveis, votem e trabalhem como qualquer cidadão comum. O que eles faziam, na realidade, era roubar e se aproveitar dos vizinhos. 
No relatório da NAS, e em publicações posteriores, Travis afirmou que uma abordagem baseada “apenas em fatos” para avaliar políticas públicas deveria ser substituída por “valores no processo de pesquisa”. Quais “valares” deveriam substituir uma avaliação objetiva?? A resposta: justiça social. Acadêmicos não podem pretender ser analistas imparciais quando abraçam, desde o princípio, uma agenda política de justiça social. Políticas públicas fundamentadas em ideologia substituirão a objetividade científica. 
Enquanto divulgavam o relatório, Travis e Nicholas Turner, presidente do Vera Institute of Justice, uma organização de defensoria, publicou um editorial no The New York Times criticando as prisões americanas e apontando o sistema penal alemão como um exemplo positivo. 
“Na verdade, existem diferenças significativas entre os dois países", os autores observaram. “Mais notavelmente, o sistema criminal dos EUA foi erigido sob a sombra da escravidão e é mantido até hoje pelas forças persistentes de racismo”. Essa declaração não só revela as visões ideológicas dos autores; ela também insulta qualquer um que trabalhe no sistema judiciário criminal e valorize a ordem e a segurança pública. 
Temas relacionados à justiça social impregnam o relatório da NAS. Considere o argumento dos autores de que, embora a criminalidade tenha aumentado e diminuído em diferentes períodos, o número de presos nunca cresceu tão drasticamente quanto nos últimos anos. Isso é verdadeiro apenas em um sentido limitado. 
Os índices de criminalidade não oscilaram anualmente, como afirma o relatório. De 1928 até 1960, os índices subiram lentamente, ano após ano. Então, durante a década de 1960, as taxas de criminalidade explodiram, culminando em níveis impressionantes de violência após três décadas de escalada. No entanto, no período que antecedeu a década de 1960, os índices de encarceramento permaneceram inalterados, e só começaram a subir depois disso. 
Pelos números do próprio relatório, antes de 1980, apenas 40% dos indivíduos presos por assassinato foram condenados à prisão (e assassinos cumpriam pena de apenas de cinco anos, em média). Menos de 10% dos indivíduos presos por agressão sexual em 1981 foram condenados à prisão, e aqueles que foram presos passaram uma média de 3,4 ano atrás das grades. 
Depois de reformas nas sentenças criminais, 92% dos assassinos condenados ficaram presos por uma média de 17 anos, e 30% dos indivíduos presos por agressão sexual foram condenados a 6 anos e meio, em média. Aparentemente, os autores do relatório NAS consideram justo o encarceramento de apenas 40% dos assassinos, e injusto o envio de mais assassinos e estupradores à prisão. 
E quanto às quedas nos índices de crimes associados à prisão de criminosos mais perigosos ou a sentenças mais longas? Essa importante questão era aparentemente muito difícil de responder. Depois de apresentarem uma litania de estatísticas complexas que embaralham esse tipo de análise, os autores afirmaram: “não chegamos a uma estimativa precisa, ou a uma mera variação de estimativas, da magnitude do efeito do encarceramento nas taxas de criminalidade”. 
Medir o impacto de qualquer política é um desafio, mas parece indefensável o fato de que os autores não puderam obter nem mesmo uma variação de estimativas com base em várias hipóteses de modelagem. Vários estudos fizeram exatamente isso, incluindo o premiado trabalho de William Spellman, e a maior parte deles mostra uma modesta queda na criminalidade associada aos índices de encarceramento.
Steven Levitt (do famoso Freakonomics), Thomas Marvell e Moody Carlisle descobriram que cada prisioneiro adicional contribui para uma queda de 15 a 30 crimes considerados graves – incluindo homicídio, estupro, assalto, assalto à mão armada, roubo de automóveis, roubo de residências e incêndio. Infelizmente, talvez os criminologistas não tenham as ferramentas e habilidades necessárias para avaliar a quantidade de crimes evitados pelo encarceramento – ou, mais provavelmente, não tenham vontade de fazê-lo.

O comportamento criminoso

Para entender por que muitos criminologistas se recusam a reconhecer o comportamento criminoso como um forte indicador de consequências na vida – incluindo mortalidade prematura, falta de cuidados com a saúde, prisão e detenção, e até mesmo ser baleado pela polícia –, é preciso entender que boa parte dos criminologistas progressistas nutre um estranho sentimento de proteção em relação aos criminosos. 
Criminologistas que trabalham em colaboração com a polícia fizeram um trabalho importante para entender qual é a melhor forma de reagir à criminalidade e como preveni-la. Seus estudos, que muitas vezes incluem análises espaciais complexas de padrões criminais, e acompanham um grande número de infratores específicos durante a detenção e o julgamento, foram rigorosamente avaliados e confirmados. Ainda assim, criminologistas progressistas rotulam esses pesquisadores como “criminologistas administrativos” – insinuando que eles ajudam o Estado a impor uma ordem social e econômica injusta. 
A ala progressista evita discutir o estilo de vida típico dos infratores. Quase todos os infratores de crimes graves são homens, e geralmente vêm de famílias com um longo histórico criminal, que muitas vezes já vem de outras gerações. Eles demonstram diferenças temperamentais desde cedo, começam a cometer infrações ainda na infância ou início da adolescência, e acumulam dezenas de prisões. Seu estilo de vida é caótico e hedonista, incluindo a constante busca por drogas e sexo. Eles têm muitos filhos com mulheres diferentes e raramente têm meios – ou qualquer inclinação – para sustentá-los.
Infratores reincidentes exploram outras pessoas para benefício próprio, incluindo mulheres, crianças, igrejas e o sistema de bem-estar social. Eles cometem muitos crimes antes de serem presos e passam décadas entrando e saindo do sistema judiciário e criminal. Muitos também relatam gostar de violência; as páginas de mídia social de gangsters baleados pela polícia e transformados em mártires muitas vezes revelam esta subcultura. Talvez, sem nenhuma surpresa, eles encarem a polícia como uma tribo adversária que precisa ser manipulada, controlada e confrontada. Em suma, a vida dos criminosos reincidentes é, com frequência, assustadoramente patológica. É difícil entender a natureza deste mundo sem testemunhá-la em primeira mão. 
Infelizmente, a criminologia tem uma longa história de supressão de provas por motivos expressamente políticos. Durante grande parte de sua história, a disciplina censurou abertamente pesquisas envolvendo, por exemplo, fatores biológicos, genéticos e neurológicos que cientistas demonstraram estar associados a traços de personalidade antissociais e problemas comportamentais. 
Ainda hoje, apesar das muitas evidências científicas – como o fato de 50% de variância no comportamento antissocial ser atribuível a fatores genéticos, ou de estudos de neuroimagem apontarem diferenças cerebrais estruturais e funcionais sistêmicas entre infratores e não-infratores –, aqueles que adotarem essa linha de pesquisa serão rotulados racistas ou mesmo eugenistas. Nós mesmos fomos alvos de hostilidade ao apresentarmos nosso trabalho em conferências profissionais, e temos sido duramente criticados no processo de revisão anônimo quando tentamos publicar nossos estudos. O animus disciplinar para o estudo dos fatores biológicos se estende a outros fatores individuais, incluindo inteligência e personalidade, e uma gama de características, tais como comportamento insensível, psicopatia e autocontrole. 
Em se tratando de parcialidade disciplinar, entretanto, nada é tão forte ou deturpado quanto o ponto de vista progressista sobre raça. Em meio à polêmica atual sobre a atuação da polícia nos Estados Unidos, o número desproporcionalmente alto de negros envolvidos em crimes violentos é o elefante na sala. O número de homicídios apresentado nos Relatórios Complementares de Homicídio do FBI entre 1976-2005 indica que jovens afroamericanos do sexo masculino são, proporcionalmente ao restante da população, vítimas de homicídio em um nível 10 a 20 vezes maior, e comentem homicídios em um nível 15 a 35 vezes maior. Historicamente, a diferença entre o número de assaltos à mão armada cometidos por negros e brancos costuma variar entre 10 para 1 e 15 para 1.
Mesmo no caso de crimes que seriam supostamente típicos de homens brancos – como assassinatos em série –, o número de criminosos negros é superior ao de brancos em um fator de 2 para 1. Considerando todos os grupos raciais, crimes violentos têm um forte elemento intrarracial, e a dinâmica intrarracial é mais pronunciada entre a população negra. Em mais de 90% dos casos, o assassino de uma vítima negra também é negro
A conexão entre raça e crime é discutida pelos criminologistas a portas fechadas, muitas vezes usando uma linguagem extremamente cuidadosa; o tema é um para-raios para acusações de hostilidade racial que podem ser profissionalmente prejudiciais. Eles evitam falar sobre exemplos de crime explicitamente racistas cometidos por negros contra brancos, como “arrastões”, “caça ao urso polar” e o “jogo do nocaute”. O que os criminologistas não dizem em público é que a diferença entre o número de crimes cometidos por negros existe desde que os dados começaram a ser coletados, e essas diferenças estão por trás das disparidades raciais no número de detenções, julgamentos e prisões. 
Eles também não dizem que, apesar de alegações de discriminação racial generalizada no sistema judiciário dos EUA, variáveis legais – isto é, o número de prisões anteriores e a gravidade do crime pelo qual o infrator foi detido – são responsáveis por uma pequena fração da variância nos resultados dos índices do sistema. Tampouco dizem a verdade sobre medidas politicamente corretas, como a diversificação do efetivo policial, contratação de chefes de polícia negros ou treinamento de policiais sobre os supostos efeitos do preconceito implícito – e o fato de que essas medidas não reduzirão as disparidades raciais na criminalidade. 
Depois da divulgação dos relatórios do Departamento de Justiça dos EUA sobre os eventos em Ferguson e Baltimore, pode parecer estranho ouvir que o sistema faz um bom trabalho de julgar e prender indivíduos com antecedentes criminais similares, independentemente da raça. Mas com cinquenta anos de pesquisa sobre o tema, ainda não foi possível identificar um vínculo claro entre disparidades do sistema judiciário e racismo. Alegações do contrário muitas vezes manipulam dados ou os ignoram completamente. No caso dos relatórios do Departamento de Justiça, e na visão de muitos criminologistas, o racismo deve necessariamente ser a causa dessas disparidades, porque reconhecer a verdade sobre o enorme desequilíbrio racial na criminalidade é politicamente intolerável. 
Os valores que caracterizam uma comunidade acadêmica afetam, em maior ou menor grau, o trabalho de pesquisa – e, no caso de criminologia acadêmica, isso se dá por meio de cortes nas pesquisas ou conclusões distorcidas. Mas quando adentra a esfera da política pública, essa tendenciosidade pode ser traduzida em consequências desastrosas para pessoas reais. 
A segurança pública pode ser comprometida, e os escassos recursos destinados a ela podem ser desperdiçados. Sob as melhores circunstâncias, a política penal já enfrenta uma complexa e imperfeita realidade de criminosos e vítimas; o risco é muito alto para aceitar pesquisas contaminadas pelo viés político. O policiamento “hands-off” (sem contato físico), defendido atualmente por muitos progressistas, simplesmente não funciona, e coloca em perigo a vida de cidadãos e polícias, além de contribuir para deslegitimar a lei e a ordem. 
Evidências confiáveis sugerem que as estratégias mais eficazes para reduzir a criminalidade envolvem atuação policial nos locais mais críticos, esforço de captura de infratores na ativa e suporte para resolver problemas locais com desordem e incivilidade. Colocar infratores predatórios e reincidentes na cadeia continua sendo a melhor maneira de proteger a população – especialmente aquela que vive em bairros com altas taxas de criminalidade. Infratores menos perigosos muitas vezes podem ser supervisionados na comunidade, e muitos se beneficiam de programas que visam combater o vício em álcool e drogas, que contribui para o comportamento criminoso. 
Apesar dos nossos esforços, porém, a maioria acaba reincidindo e voltando para o sistema em algum momento. 
O atual debate norte-americano sobre a reforma da justiça criminal é bem-intencionado, mas corremos o risco de sucumbir à retórica apaixonada e sermos enganados por promessas baseadas em frágeis evidências. Os resultados positivos da redução da criminalidade foram conquistados a duras penas, mas uma reforma defeituosa pode facilmente pôr tudo a perder. E o custo será medido em sofrimento e vidas perdidas. 
A realidade do crime não se presta a uma simples análise de planilha; tampouco é uma questão de teoria ou princípio filosófico para aqueles que se tornaram vítimas. Toda e qualquer iniciativa de reforma deve reconhecer esses fatos. Incentivamos os responsáveis pelas políticas públicas a ouvir o que os criminologistas têm a dizer, mas também os incentivamos a prestar atenção àquilo que eles não dizem – e que muitas vezes é mais importante. 
John Paul Wright é professor na Faculdade de Justiça Criminal da Universidade de Cincinnati.  Matt DeLisi é coordenador do setor de Estudos de Justiça Criminal, professor do Departamento de Sociologia e professor associado do Centro de Estudos de Violência na Universidade Estadual de Iowa.
©2017 City Journal. Publicado com permissão. Original em inglês.
Tradução: Ana Peregrino.