quinta-feira, 13 de julho de 2017

A mancha indelével da corrupção - Ricardo Noblat


- O Globo

Biografia foi manchada para sempre. Nunca antes na História deste país um presidente da República havia sido denunciado por corrupção. Michel Temer foi o primeiro, acusado pelo procuradorgeral da República, Rodrigo Janot, de corrupção passiva. Destinava-se a Temer a mala de dinheiro do Grupo JBS arrastada por uma rua de São Paulo pelo ex-deputado Rocha Loures (PMDB-PR).

Nunca antes na História deste país um ex-presidente da República havia sido condenado por corrupção. Lula foi, ao ser sentenciado pelo juiz Sergio Moro a nove anos e meio de prisão no processo do tríplex do Guarujá. Se a segunda instância da Justiça confirmar a sentença, ele será preso. Mesmo que não seja, ficará impedido de disputar eleições.

A primeira e única vez, até aqui, que Lula provou os dissabores da cadeia foi na condição de perseguido pela ditadura militar implantada no país em 1964, e que duraria 21 anos. Muito bem tratado, à época, pelo delegado Romeu Tuma, que depois se tornaria seu amigo e ingressaria na política, Lula fez greve de fome chupando balas. Foi logo solto e virou herói.

Mesmo que por ora solto e candidato a roubar do ex-ministro José Dirceu a condição de “guerreiro do povo brasileiro” conferida pelos militantes do PT, dificilmente Lula será encarado daqui para frente como herói pela larga maioria daqueles que no passado recente o enxergaram como tal. Sua biografia ganhou para sempre a mancha indelével da corrupção.

Pouco importa que ainda ostente o título de campeão das pesquisas de opinião pública, com algo como 30% das intenções de voto para presidente se as eleições fossem hoje. Tais pesquisas também o apontam como campeão de rejeição. Mais de 60% dos entrevistados dizem que jamais votariam nele. De resto, só haverá eleições em outubro do próximo ano.

A condenação de Lula por Moro produzirá efeitos no campo da esquerda. De saída, reforçará as chances de Ciro Gomes (PDT-CE) conseguir o apoio do PT para concorrer à Presidência. Não se descarte a hipótese de Dilma desejar a mesma coisa. Se escapar da Lava-Jato, pela direita, o governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) lucrará com a condenação de Lula.

Quanto a Temer... Mesmo que a Câmara dos Deputados negue autorização para que seja julgado pelo Supremo Tribunal Federal, enfrentará uma segunda e talvez uma terceira denúncia por corrupção e obstrução da Justiça, fora as delações do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e do doleiro Lúcio Funaro. Caso sobreviva, governará como um morto-vivo.

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