segunda-feira, 10 de julho de 2017

Pressão social | Vera Magalhães


- O Estado de S.Paulo

O nó de Temer é que a agonia política dá sinais de produzir caos nas grandes cidades

Em mais um sintoma de que está bastante desconectado da realidade e da rápida perda de sustentação política de seu mandato, Michel Temer foi de última hora à Alemanha para dizer que não existe crise econômica no Brasil. Ainda que a crise política que engolfou seu governo não tivesse tratado de colocar em xeque a lenta recuperação da pior recessão econômica da história do País, o legado que o PT deixou, juntamente com a corrupção institucionalizada, a declaração já seria disparatada.

O nó para Temer é que o prolongamento da agonia política, que impede a saída do fundo do poço econômico, já dá sinais de produzir nas grandes cidades brasileiras uma situação de caos social com a qual prefeitos sem dinheiro em caixa não têm a menor ideia de como vão lidar.

O tema já faz parte de conversas dos mandatários das cidades. João Doria e Marcello Crivella, prefeitos das duas principais metrópoles brasileiras, trocaram em reunião recente informações sobre a explosão, nos últimos meses, da demanda por serviços de atendimento de saúde, fornecimento de medicamentos e vagas em albergues e o crescimento exponencial da população em situação de rua.

“Ninguém parece se dar conta de que o Brasil está flertando com uma crise social gravíssima, que pode resvalar para violência, fruto de um desemprego que não para de crescer e de uma profunda desesperança da população”, disse Doria à coluna na última semana.

O cenário descrito pelo prefeito não difere da preocupação expressada por outros gestores, que veem a arrecadação minguar na velocidade em que a crise política corrói a confiança de empresários e investidores, prolongando a agonia econômica.

Serviços públicos em que já há déficit de oferta, como creches e escolas, passam a ser pressionados pela chegada de um contingente de desempregados que deixa de ter condições de pagar por vagas na rede privada.

O temor dos políticos é que o cenário combinado de permanente instabilidade política e econômica comece a gerar cenas de caos social como as vistas na Argentina na virada de 2001 para 2002, quando o país assistiu em poucos dias a um desfile de presidentes que caíam como um castelo de cartas após a renúncia de Fernando de la Rúa.

O resultado desse caldo, caso a situação se agrave e se prolongue, podem ser saques a farmácias e supermercados, protestos cada vez mais violentos e a corrosão do tecido social.

Se para o mercado pouco importa se Temer der lugar a alguém tão opaco quanto Rodrigo Maia, desde que a equipe econômica permaneça e consiga levar a cabo ao menos um arremedo de reformas constitucionais, isso parece ter pouca valia para refrescar essa pressão social por serviços que prefeituras, governos estaduais e a União não têm como atender.

Mais uma herança do estatismo irresponsável da era petista — que, para alimentar uma clientela eleitoral fiel a ponto de eleger duas vezes alguém tão inepto quanto Dilma Rousseff, solapou qualquer conceito de responsabilidade fiscal.

Tendo aprovado o teto de gastos da União sem a necessária contraparte da reforma da Previdência, Temer vai legar outra armadilha fiscal: um orçamento que no ano que vem crescerá bem menos que a despesa obrigatória, o que significará mais cortes de gastos sociais e mais pressão na ponta.

Nada indica que a troca de cadeiras no Planalto tenha o condão de cessar a sangria política iniciada a partir das revelações da Lava Jato e a recessão continuada produzida por Dilma.

A tragédia brasileira é que tudo sempre pode piorar, e Temer vai legar ao País em sua tão rápida quanto desastrada passagem pela presidência uma chaga social que será difícil de cicatrizar mesmo após a tão esperada eleição de 2018.

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